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MUITAS

Quantas vezes tenho que dizer a mesma coisa?



Escrito por André Rodrigues às 20h45
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O pôster estraga tudo, parceiro

"Tropa de Elite" é de fato um grande policial. Coisa fina. A arquitetura planejada por José Padilha, Rodrigo Pimentel e Bráulio Mantovani funciona que é uma beleza. Flashbacks, três personagens fortes, morro, mortes e narração em off. Deus - pra usar uma expressão realmente potente - sabe como é difícil colocar de pé um treco desses - ainda mais no Brasil, sem tradição de filmes policiais.

É uma tremenda balela esse papo de fascismo. O filme revela mais sobre os críticos, articulistas e público do que sobre a guerra do tráfico.

Porém, parceiro, o pôster do negócio estraga tudo. Está lá, escrito sobre uma foto do heróico capitão Nascimento: "Uma guerra tem muitas versões. Esta é a verdadeira". Como é que é? Então a tchurma que bolou o cartaz de "Tropa de Elite" acredita que a verdade está na tela de cinema. Hã?

Depois de tantas discussões, brigas, pancadas pra dizer que um filme é só um filme - mesmo que seja próximo do documentário - o pôster vem me dizer que a verdade está com "Tropa de Elite"? Danou-se.

Então estudante é tudo pilantra mesmo, o Bope é genial e a molecada do morro já era. Perdeu.

Pensei que estávamos assistindo a mais uma versão dessa brincadeira. E não conferindo a suprema verdade.

O sucesso subiu e cavalgou na cabeça de alguém.

Pede pra sair, cara do pôster.

Escrito por André Rodrigues às 18h08
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O seu lixo é gay?

Numa das melhores seqüências do filme “Eu os Declaro Marido e... Larry” (em cartaz em todo o Brasil), o suposto casal homossexual interpretado por Adam Sandler e Kevin James tem que arranjar um lixo gay pra conquistar de vez o governo dos EUA.

Explicando. Os dois formam um casal de fachada, pois são heterossexuais convictos. Com a armação (eles se casam no Canadá), pretendem conquistar certos direitos para os filhos do Kevin. Coisas da lei dos homens.

Só que um fiscal (o sempre carismático Steve Buscemi) resolve investigar as falsas bichas e provar que, na verdade, os dois marmanjos estão se aproveitando da brecha legal e pretendem burlar o sistema.

Assim, além de ficar de olhos (com trocadilho) bem abertos, Buscemi faz uma investigação profunda, inclusive verificando se o lixo dos caras é suficientemente gay.

Ao descobrir que o agente das esferas superiores está revirando sacos de dejetos atrás de provas, os malandros resolvem providenciar um lixo homossexual para comprovar que realmente formam um casal.

Então, eles vão às compras para adquirir coisas absolutamente... de viados (segundo conceitos que podemos explorar outro dia). A saber:

- DVD do “Brokeback Mountain”
- CD da Liza Minelli
- CD da Barbra Streisand
- KY

E outros itens comprometedores (sem contar que a trilha-sonora da película bomba Pet Shop Boys, Abba, Bowie, etc.).



E lá vamos nós para questionamentos arremessados por uma comédia:

1. Será que vivemos num mundo onde não basta assumir posições (com trocadilho), opiniões e discursos - pois tudo pode ser uma imensa fraude para enganar os outros?

2. Só o lixo comprova nossas verdadeiras convicções? Todo o resto não passa de fachada que assumimos para agradar à sociedade?

As coisas estão cada vez mais complexas. Desconfiamos de tudo e de todos. Nada parece muito real ou palpável ou sei lá o quê.

Todos os dias nascem novos rótulos, novos homens, novas mulheres, etc. Somos moldados seguindo a imagem e semelhança do Deus Mercado.

Percebi que conheço meus vizinhos apenas pelas possíveis falsidades exercidas nos elevadores. Então fui xeretar seus sacos de lixo. Hummmm... Embalagens de produtos congelados, latinhas de refrigerantes, vinho e alguns cocos. O que eles estão querendo me dizer? Serão gays? Beldades? Carentes? Baianos?

Todos os dias, nós jogamos as nossas individualidades em imensos latões marcados com símbolos de reciclagem.

Somos Narcisos sem espelho; e daqui a pouco poderemos confiar apenas no reflexo de nossos rostos naqueles sacos azuis.

Quando você enfrentar seu próximo encontro amoroso, não tome nenhuma medida drástica antes de dar uma boa olhada no lixo do/a pretendente.

Vai saber. Talvez o melhor (ou o mais sincero) dela/e esteja lá, amassado, num saco plástico.

Escrito por André Rodrigues às 13h54
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Os dois Brasis de Ariano

E depois descem o cacete naquele negócio chamado povo.

Fui a uma palestra/espetáculo/show de humor do Ariano Suassuna (escritor e professor) e presenciei um daqueles raros encontros entre arte popular e erudita.

O sujeito tem 80 anos e sua presença desperta frenesi. O encontro - patrocinado por um banco e com entrada grátis - foi no árido Memorial da América Latina.

Quase mil pessoas se espremendo para ouvir um paraibano contar histórias? Pois é. Uma garota na minha frente na fila para retirar os ingressos denunciava as deliciosas contradições de nosso tempo – e o lado “ecumênico” do show. Ela vestia uma camiseta com a estampa do Che, portava uma bolsa da marca Prada e carregava numa mão a revista “Piauí” e, na outra, a “The Economist”. Coisas da globalização, pensei.

Lá dentro, no auditório em êxtase que aplaudia até minuto de silêncio, Suassuna deu um passeio. Leu trechos de um romance de cavalaria, outro de uma novela picaresca, explicou o sentido do barroco, tentou desfazer mitos, citou Picasso, Debussy, Balzac, Gogol e outra meia dúzia de gênios da dita grande arte.

E não é que a rapaziada anotou os nomes e encarou tudo aquilo como sugestão de programa para o final de semana?



Além disso, o escritor de “Auto da Compadecida” chamou de imbecil uma longa lista de famosos, entre eles Bush Filho, Ronald Reagan, Gorbachev, Elton John, boa parte dos músicos ingleses atuais e a rainha da Inglaterra.

Foi ovacionado.

Ele também imitou roqueiros, funkeiros, contou piadas, disse que é ciumento (“se a mulher não é minha, é de quem então?”) e soltou essa pérola: “Não existe coisa mais melancólica do que banda de rock formada por velhos”.

Durante quase todo o tempo, fez questão de citar Machado de Assis e sua frase: “Existem dois Brasis; o real e o oficial”.

Ali, no Memorial, estava claro que essas duas nações conviviam em harmonia – e até tentavam se entender. Muitos seguravam celulares de última (ou da próxima) geração; outros olhavam com apreensão para o relógio torcendo para a palestra acabar antes da última condução.

E quem disse que o tal povo não curte alguma coisa mais refinada?

Por pouco mais de duas horas, o Brasil parecia ter jeito. O oficial e o real buscavam soluções a partir da cultura. A única coisa desprezada era a miséria intelectual, a imitação barata de modismos, as falcatruas dos políticos, a cagação de regras, etc.

Pena que, na saída, cada um correu para a sua própria pizza. Uma, oficial e de tomate seco com rúcula; a outra, com gosto de dogão.

Em tempo: texto escrito sob a bênção de “Rainha da Praia”, pinguinha boa – e popular - lá de Cabreúva (interior de São Paulo).

Escrito por André Rodrigues às 23h09
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Piaf e Querô - Entre duas misérias

Exercício interessante é assistir aos primeiros 40 minutos de "Piaf - Um Hino ao Amor" (cinebiografia das mais chatinhas sobre a Bibi Ferreira, quer dizer, sobre Edith Piaf) e também conferir "Querô" (longa nacional - legítimo, inclusive nos problemas - baseado em peça de Plínio Marcos).

Ambos mostram crianças miseráveis em ambientes - socialmente e psicologicamente - destroçados. Tanto a famosa cantora francesa como o garoto Querosene tentam sobreviver em meio a puteiros, bebidas e vandalismo. Sem o afeto dos pais, resta para a molecada a implacável rotina das ruas.

Só que miséria à francesa sempre conta com bons vinhos, roupas quentes e o Gérard Depardieu. Piaf estava condenada ao limbo dos albergues parisienses. Mas, sua poderosa voz a salvou. Ou melhor: ao perambular pelas ladeiras cantando e soltando o gogó, ela conquista um olheiro (ou "ouvideiro" - o Depardieu) e passa a ser moldada para o estrelato (levando junto seus companheiros igualmente pobres).




Paris até hoje promete uma virada de vida, uma oportunidade na esquina (em geral, como qualquer outro país da Europa ou os Estados Unidos). Há esperança, enfim - desde que você consiga pegar um avião.

Já por aqui, dane-se qualquer possível talento de Querô. Sua roda-viva é um sem fim de amargura e desespero. Como Pixote ou tantos outros meninos de rua do nosso cinema, ele jamais será revelado por fazer malabarismos no farol.

É como se as vielas de Santos (onde se passa a história) sufocassem o aparecimento de qualquer genialidade (com exceção de destaques no samba ou no futebol que vieram da mais absoluta e completa pobreza).

Querô poderia ter a voz e o carisma de Frank Sinatra e Elvis num só corpo; e mesmo assim permaneceria condenado ao esquecimento.

Claro, estamos em tempos diferentes (Piaf-menina é pré Segunda Guerra e Querô é agora). Porém, como é possível flanar sem grana por Paris e ter esperança, mas jamais imaginar essa possibilidade (flanar) em Santos?

Será que nos faltam gênios nos semáforos ou Depardieus de olho na molecada?

Escrito por André Rodrigues às 12h38
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A gente somos inútil

"Fazer o que seja é inútil. Não fazer nada é inútil. Mas entre o fazer e o não fazer mais vale o inútil do fazer."
João Cabral (aquele mesmo), poeta

Escrito por André Rodrigues às 23h28
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